Uma das primeiras garrafas; nome original seria Kofocola

Doce… Ela é um dos maiores símbolos do capitalismo. Assim, é claro, foi preciso criar uma versão comunista. Eis que surge, em 1960, a Coca-Cola tcheca, a Kofola. O químico Zdeněk Blažek foi o criador da receita, uma mistura de extratos de ervas e frutas, que dá um sabor bastante doce à bebida — ainda que, segundo a marca, o líquido tenha um terço a menos do açúcar da Coca original. Na Tchecoslováquia, era possível encontrar Coca-Cola nos anos do comunismo, mas a distribuição era pequena, e o preço, bastante alto. Assim, a Kofola tornou-se um sucesso. Hoje, após queda nas vendas durante o período de transição para o capitalismo, o refrigerante tornou-se novamente popular, e ocupa o segundo lugar no ranking dos refrigerantes mais consumidos no país, atrás da Coca-Cola.

Alguns dos comerciais da Kofola dariam o que falar no Brasil. No vídeo abaixo, um aluno beija a professora após a aula:

Neste, traseiros nus numa praia de nudismo são mostrados sem pudor. Mas os tchecos têm uma relação com a nudez diferente da nossa. Nos dias de sol, não é difícil ver uma mulher bronzeando-se de calcinha e sutiã, esparramada na grama de um parque. E ela pode também se refrescar tomando a Kofola…

Cidade a 60 km de Praga conserva forte usado para confinar inimigos do nazismo

A cena não é nova. Você já viu em filmes, nas fotos, nos livros de história. Mas não faz diferença. A primeira vez que entrei num dos quartos da prisão nazista de Terezín, aqui na República Tcheca, foi um choque. As camas coletivas de três andares, feitas às pressas, com madeiras tortas e mal pregadas, ainda estão lá. Era um dia quente, mas ali, sem janelas e com pouca luz, estava gelado, e um pequeno aquecedor a lenha, que também foi preservado, me fazia imaginar o frio que os prisioneiros enfrentavam no rigoroso inverno europeu. E tudo isso me fazia pensar em quantos por lá passaram e de lá nunca saíram.

Estrutura de madeira das camas coletivas, em sela do Pequeno Forte

A cidade de Terezín, a 60 km de Praga, foi edificada no fim do século 18 como um forte, cercada de muralhas. Pouco depois de a Tchecoslováquia cair no domínio de Hitler, em 1938, os nazistas decidiram aproveitar uma das construções da cidade, o Pequeno Forte, e montar uma prisão para quem resistisse ao regime. Era junho de 1940. Em cinco anos, 32 mil homens e mulheres passaram por ali, em trabalho forçado e vivendo em péssimas condições de higiene e saúde — o que resultou na morte de 2.600 prisioneiros. Cada cela chegava a abrigar 600 pessoas. O Pequeno Forte, no entanto, era uma prisão temporária, e muitos acabaram sendo deportados para campos de concentração. Poucos sobreviveram.

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Com o fim da Segunda Guerra, e a derrota da Alemanha, o forte foi mais uma vez palco de atrocidades: prisioneiros de guerra e alemães residentes na Tchecoslováquia foram mandados para Terezín. Hoje, em um galpão com várias celas solitárias, a foto de uma idosa com os cabelos todos brancos lembra que o término do conflito não acabou com a violência: era uma professora alemã que, apesar da idade, foi presa. Ela não resistiu ao confinamento e morreu ali.

O complexo do memorial de Terezín, estabelecido em 1947, abarca ainda outros pontos, como o cemitério Nacional, logo em frente ao Pequeno Forte. O local recebeu restos mortais de prisioneiros enterrados em valas comuns em Terezín e em outros campos da região, além  de cinzas dos que morreram no gueto judeu de Terezín (já falei dele aqui, mas comentarei mais no próximo post) — há 2.386 sepulturas, e os restos mortais de 10 mil vítimas. Também podem ser visitados o cemitério Judeu, o crematório criado pelos nazistas e edifícios do gueto. Dentro do forte, vale percorrer um antigo e estreito túnel, que corta as muralhas, com 500 metros de extensão.

Em tempo: O Pequeno Forte abre todos os dias: no inverno (1/11 a 31/3), das 8 às 16h30; no verão (1/4 a 31/10), até as 18h. O crematório segue os mesmos horários, mas fecha no sábado. Os prédios não abrem nos dias 24 e 26 de dezembro e 1º de janeiro. A entrada para o forte custa 170 coroas tchecas (cerca de 17 reais) e é preciso também pagar uma taxa de 50 coroas (R$ 5) para fazer fotos. Não há visitas guiadas regulares, mas, se tiver tempo, pode tentar se encaixar em um dos grupos agendados. 

Em tempo 2: Para chegar a Terezin, há ônibus saindo das estações ônibus Florenc ou Holešovice. Veja os horários aqui.

Além de oferecer várias marcas de ‘pivo’, evento em Praga resume cultura do país 

Quando soube da notícia, um amigo disse no Facebook: “O maior evento do mundo de todos os tempos?”. Se para você uma grande tenda que venda o litro de cerveja tcheca a R$ 9 representar o paraíso na terra, estamos talvez diante de um acontecimento digno de nota. Se você nem gostar tanto de cerveja assim, mas estiver em Praga até o dia 2 de junho, vale conhecer do mesmo jeito, porque o festival da Cerveja Tcheca reúne o principal da cultura do país em alguns metros quadrados.

Quando o pedido é grande, garçonetes levam a cerveja para a mesa assim

Na tenda maior, a estrela do festival (pivo, em tcheco) é vendida apenas em grandes e pesadas canecas de um litro, mas a variedade não é muita. Apesar de ser um único espaço, há dois cardápios: garçonetes com trajes típicos servem quatro grandes marcas de um lado do palco e quatro do outro — além da Klášter e da Lobkowicz não alcoólica, que são vendidas em todo o galpão. As mais conhecidas no país, Budvar e Pilsner Urquell, no entanto, não fazem parte da festa.

Há também um bufê de cada lado, ambos com comida típica tcheca, como gulache (um cozido de carne; a cerca de R$ 13,50) e linguiças grelhadas (klobása, em tcheco) com mostarda, raiz-forte e pão, a R$ 9 (a melhor opção para acompanhar a cerveja, dizem os locais). Se seguir essa sugestão, peça a linguiça no bufê de cardápio vermelho (Vyšehrad 2000), porque é mais farta e saborosa.

Num galpão menor, cervejarias menores vendem suas iguarias em canecas mais modestas, de 500 ml, por cerca de R$ 4,5. Há também um estande com garrafas para levar para casa, pelo mesmo preço. Para o apreciador e conhecedor de cerveja, essa tenda, sim, é diversão pura, porque são marcas que não são encontradas facilmente nos bares ou nos supermercados. Provei uma escura, Černá vdova (viúva negra), da Nomád, na caneca, e uma clara, Rohozec Skalák, na garrafa (a temperatura ambiente; ao contrário do Brasil, a cerveja tcheca nunca é servida “estupidamente gelada”), e a  segunda se saiu melhor: suave e com pouco amargor.

E o resto da cultura tcheca? Está no cachorro que foi com os donos ao festival — eles adoram o bicho, e é fácil encontrar um cão deitado aos pés dos clientes nos restaurantes daqui —; na dupla de músicos que toca canções tradicionais e faz casais dançarem no meio do galpão; e no jogo de hóquei, transmitido em telão na tenda menor, e que arranca muitos gritos da plateia (mesmo se a disputa for entre Rússia e Finlândia…)

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Em tempo: Se esse texto não ficou bom, a culpa não é minha. Eu tive de experimentar as cervejas para poder escrevê-lo, e a urgência em contar a história me fez redigir tudo assim que cheguei em casa…

Em tempo 2: O festival funciona das 12h à meia-noite, no centro de exposições Holešovice. A entrada é gratuita, e para experimentar as cervejas e os pratos é preciso trocar as coroas tchecas pela “moeda” do evento, o tolar (cada um vale R$ 4,5); é preciso comprar no mínimo 5 tolars.

Em tempo 3: O texto foi reproduzido no BOL. Clique aqui para ver. 

Juliana Doretto

É jornalista e vive em Praga, na República Tcheca. Doutoranda na Universidade Nova de Lisboa e mestre em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo), trabalhou como repórter e redatora do portal UOL, de suplementos da "Folha de S.Paulo" e do jornal "Agora". Fez parte do Curso Abril de Jornalismo de 2003.

jdoretto@hotmail.com

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